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Dia da Consciência Negra

Ao meu amigo Ivo Ferreira de Jesus


Infelizmente, ainda, é necessário o dia da consciência negra. Acabei de ver o filme sobre a vida do pugilista norte-americano Ruben Carter e fiquei pensando em quantas atrocidades foram feitas e estão a ser feitas, e ainda, continuarão a acontecer, enquanto as pessoas são medidas pela cor de sua pele. Também, estou a ler a respeito da Structuration Theory de Anthony Giddens e, por isso, assim como por outros motivos epistemológicos não acredito em nada no que tange a inconsciência.

O preconceito racial e cultural ocorrem em todos os contextos Pós – Coloniais, seja aqui na Europa, seja na Ásia, seja nas Américas, seja no Oriente Médio, seja na África. Este está claramente alicerçado por natureza económica ou de manutenção do poder. Destarte, O modelo branco, muitas vezes copiado pelos negros, de pensar o mundo tem se repetido e se repetido vai se reformulando e se reformulando(...), vai ganhado dimensões e características tão contextuais que em muitas culturas esta assimilação e contínua e permanente como forma de sobrevivência.

Continuo abominado a passeata dos aproveitadores de um partido político que sai Campo Grande e a outra que sai da Liberdade de outro partido político, enquanto estes abutres estiverem com as suas faixas, cores e slongans se aproveitando da «inconsciência negra», estarei desconfiado, por que sei que  este caminho só alimenta quem manda ou tira a visibilidade de muitos para dar um luz a poucos. A consciência não tem partido político. A consciência está na mãe de santo que festeja o natal, esta no menino de rua que quer pertencer a esse mundo de consumo.

Me incomoda muito esta partidarização deste dia por que sei que ele é político, mas, com tantos partidos, nós negros passamos a nos movimentarmos pelas ruas como vacas – leiteiras que alimentamos toda essa orgia política, e essa ingénua credulidade no outro. Na vacância do poder, muitos ratos sairão dos esgotos mais pútridos, onde os excrementos são líquidos, para se assumir como afrodescendente e ocupar um espaço no poder político.

Nós negros baianos não merecemos o que esta ocorrendo com a nossa cidade. Sei que este movimento de geitização é um passo para traz, talvez necessário. Talvez (…). Mas vá lá tanta necessidade de consciência quando 82% da população é afrodescendente brasileira na contemporaneidade. Dito isso, na estatura de um investigador que sabe as emoções e sentimentos são construídos em escolares afrodescendentes, e como estes podem ser trabalhados de tal forma que eu possa ganhar a simpatia dos mesmos, assim como ganhar a antipatia de muitos.

Sei por que precisamos desta «consciência negra ou da alimentação da inconsciência no imaginário colectivo baiano», quando nós expressamente somos negros. Todo esse processo de descolonização ou ainda de Neo – Colonização continua a permanecer nas mentalidades racistas e subservientes da cidade de Salvador, assim como do Brasil. Falo do Pós – Colonialismo, entretanto sei que os pilares fundamentais que este avance estão a se construir e, por esse motivo, caminhamos como um pêndulo às vezes, para um lado, às vezes para outro lado. Não estamos bêbados, nem estamos em um barco sem rumo e este movimento pendular, que nos faz existir em dois mundos: o colonial com toda sua força de coerção, onde as estruturas sociais se repetiram, e se reforçaram no Brasil pós 1888 e pós colonial onde nosso desejo, no ressentimento, nosso capacidade de reagir a qualquer movimento mal feito nos faz cambalear entre o que se aceita e um outro que não se deseja ver no espelho.
Um abraço,
Domingos Oliveira de Sousa
Porto, 20 de Novembro de 2007-11-20

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